Introdução à Domótica

INTRODUÇÃO

A Domótica é uma palavra que deriva do francês “Domotique” que podemos identificar com casa (“Domus”) automática (“Imotique”). O dicionário Larousse em 1988 definia o termo domótica como “o conceito de casa que integra todos os automatismos em matéria de segurança, gestão de energia, conforto, comunicações, etc.” O facto de a palavra domótica ser um galicismo significa tão somente que foi efectivamente em França na 2ª metade da década de 80 do século passado que esta tecnologia mais se implantou no Continente Europeu, um tanto por virtude da aplicação de sistemas com origem nos Estados Unidos da América, como o X-10, como por muitos outros como o ISIS, o ATETRIX, o DIACE ou o DOMISSIMO. A maior parte destes sistemas teve vida curta mas foram todos impulsionados, por um lado, devido ao apoio do Estado Francês ao uso de sistemas que permitissem uma utilização mais racional da energia (aquecimento, principalmente) e tornassem as casas mais seguras e, por outro lado, pela existência de um sistema telemático como o Minitel em praticamente todas as casas.

DEFINIÇÃO

Uma definição mais actual da domótica é a de que esta é a utilização simultânea da electricidade, da electrónica e das tecnologias da informação no ambiente residencial, permitindo realizar a sua gestão, local ou remota, e oferecer uma vasta gama de aplicações nas áreas da segurança, conforto, comunicações e gestão de energia.

DOMÓTICA E QUALIDADE DE VIDA

Nos últimos 2 anos tem-se assistido a um interesse cada vez maior por parte de Utilizadores, Técnicos, Engenheiros, Arquitectos e Promotores Imobiliários pelos temas relacionados com a domótica.

Não existe em Portugal nenhum jornal diário ou semanal, revista ou suplemento que ainda não tenha dedicado espaço a este tema. Este interesse não é gratuito pois como cada vez passamos mais tempo fora de nossas casas, e existindo uma crescente incorporação da mulher no mercado de trabalho, necessitamos de um certo tipo de ajuda para a gestão da nossa casa, assim como, para a realização de tarefas quotidianas, mais ou menos repetitivas. O uso racional da domótica proporciona esta ajuda.

APLICAR A DOMÓTICA NAS NOSSAS CASAS

Apesar de tudo o que antes se expôs, constata-se facilmente de que a domótica não é instalada em nossas casas! As causas são muitas e variadas, pelo que irei analisar aquelas que, para mim, são as mais importantes.

  1. Em primeiro lugar, devemos analisar de que maneira se obtém o conhecimento dos sistemas domóticos e das suas funções. Geralmente através de sessões informativas promovidas pelas empresas fabricantes/distribuidoras, feiras e revistas técnicas. Todos estes meios atraem um conjunto de técnicos que possuem um claro desejo e motivação em ampliar os seus conhecimentos nesta área. Ao fim de pouco tempo dão-se conta da enorme oferta existente no mercado em termos de marcas, de que existem diferentes tecnologias e protocolos (correntes portadoras, bus, rádio frequência, ponto-a-ponto, autómatos programáveis, etc.) e de que todas as empresas prometem exactamente o mesmo, ou seja, que os seus sistemas fazem tudo, podem poupar imensa energia, podem ser instalados com grande facilidade, não necessitam de formação especial, etc. Tudo facilidades, mas quando chega a hora de falar de preços, vem sempre a mesma conversa de que depende da configuração a instalar em cada caso particular! Como primeira conclusão o técnico, ou melhor dizendo o electricista já um tanto confuso perante tamanha quantidade de oferta (nem toda adequada, como veremos adiante), constata que o nosso regulamento não contempla o uso da tecnologia, consequentemente tem receio perante a fiscalização da Certiel e, por último, dá-se facilmente conta de que o custo do sistema a oferecer é superior àquele que eventualmente o seu cliente poderia pagar.
  2. Em segundo lugar, quando existe diálogo com um cliente para que sejam incorporadas algumas funções e se concebe um sistema domótico, surge sempre esta pergunta: É muito bonito, parece funcional mas e quando se avaria? A quem tenho que chamar? Será que não pode ser reparado pelo electricista aqui da zona? O possível cliente ao formular esta questão vislumbra de imediato a resposta, ou seja, não! O electricista da zona, do bairro, ou da vila não pode reparar o sistema, simplesmente porque não tem conhecimentos para isso. Esta é uma das razões chave porque a domótica ainda não teve o êxito esperado. As pessoas confiam no seu electricista e este nada sabe de domótica. A resposta de um electricista a uma pergunta sobre a instalação de domótica será sempre do tipo “não coloque isso que é muito caro, não funciona bem, conheço um caso em que ficou a funcionar mal,... Estas respostas mascaram a realidade que é a de que os electricistas não têm conhecimentos de domótica e não lhes é fácil adquiri-los, preferindo por isso continuar a fazer o que sempre fizeram realizando instalações tradicionais as quais, todavia, já não asseguram grandes benefícios tendo em linha de conta a enorme concorrência existente. Como resultado, as pessoas não confiam na domótica e, portanto, não se realizam instalações. Em resumo, existe uma carência generalizada de formação na área existindo meritórias excepções, como os cursos que o Instituto de Soldadura e Qualidade ministra nas suas instalações do Tagus Park em Oeiras.
  3. Em terceiro lugar, persiste a maneira errónea como as empresas fabricantes e distribuidoras de sistemas domóticos têm criado as necessidades no mercado. Se obtivermos alguma resposta sobre o que é a domótica e o que significa, apesar de todos os quilómetros de artigos e notícias publicadas e a publicar, as pessoas irão dizer que se tratam de casas de luxo, todas automatizadas, tipo “casa dos Jetsons” e, claro, muito caras. Assim o cidadão da classe média crê que a domótica não é para si, que está fora das suas possibilidades, que é algo frívolo e caprichoso e, portanto, não gosta. O facto é de que muitos dos artigos escritos, vídeos produzidos e palestras proferidas são sobre aplicações muito sofisticadas realizadas sobre ambientes domésticos luxuosos e as entidades que os promovem deveriam salientar que o que estão a apresentar é Automação Doméstica enfocada numa integração de sistemas que vão dos cenários de iluminação ao Home Theater. Isto não é domótica! Que fique bem claro. Deveriam ser feitas apresentações (em vídeo ou escritas) sobre realidades mais modestas e menos pretensiosas, mostrando ao utilizador médio quais as vantagens oferecidas pela incorporação de um sistema domótico na sua residência. Estas aplicações são: detecção de incêndio e intrusão, detecção de fugas de água e gás, corte automático da água e gás em caso de ocorrência de fuga, controlo da climatização e respectiva temperatura, alarme médico ou de emergência e controlo remoto via telefone ou PC, assim como, receber em telefone fixo ou móvel os alarmes de incêndio, intrusão, fuga de gás, fuga de água e falta de energia. Estas são verdadeiramente as aplicações de uma instalação domótica que deveria estar presente em todas as construções e promoções imobiliárias. É devidamente apreciada e entendida pelos utilizadores e reúne todas as condições, através de formação adequada, para ser aplicada pelo electricista. Outras aplicações como o controlo dos electrodomésticos, da iluminação e dos estores deverão igualmente poder ser implementadas sem dificuldade de inicio, ou à posteriori usufruindo de uma pré-instalação.

TECNOLOGIA

Para se aplicar um sistema domótico tem de colocar-se pela casa um conjunto de dispositivos em função das necessidades apresentadas pelos proprietários, cujo núcleo principal foi já devidamente enunciado no ponto anterior. Estes dispositivos são, basicamente, sensores e actuadores aos quais se adicionam os controladores, as interfaces de utilização e os dispositivos específicos. Os controladores são só obrigatórios nos sistemas com arquitectura centralizada.

Inicialmente, a única maneira de construir uma instalação domótica era a partir de uma unidade central ou autómato, designado por controlador, ao qual se uniam em estrela os    vários sensores e actuadores. O autómato central ou controlador possuía toda a inteligência do sistema. Eram quase sempre sistemas proprietários, muito pouco flexíveis e com um custo elevado para a implementação de novas funções (exemplo: sistema VIS da Simon).

Desde há alguns anos e graças à diminuição do custo dos componentes electrónicos tornou-se possível a evolução destes sistemas com a introdução de módulos adicionais interligados por um bus de comunicação baseado em protocolos standard, interfaces de utilização simples, e ao mesmo tempo poderosas, operando por teclado, painel de visualização táctil ou não, telefone fixo ou móvel, wap, PC ou internet (exemplo: sistema Vivimat + da A Casa Inteligente).
 
Outros sistemas ainda utilizam os protocolos standard existentes como o X-10 (Domaike, Leopard, Cardio), o EHS (Biodom, Maior-Domo), o Batibus (Amigo, Delta Dore), o Lonworks (Dialogo, Domolon) e o EIB (Tebis ts) e a partir destes implementam uma rede local de controlo e de arquitectura distribuída.

Com todos estes sistemas e arquitecturas a domótica ganhou em facilidade de instalação, e de utilização, aumentou as funções disponíveis, ficou mais económica e criou o seu próprio mercado.

Apesar de tudo este mercado da domótica está ainda muito longe do que seria de prever, devido principalmente aos três factores enunciados no ponto referente à aplicação de domótica nas nossas casas. A sensação de que o valor a investir e o valor acrescentado não justificava o investimento, passava pela cabeça dos potenciais utilizadores. Mas algo mudou dramaticamente em nossas vidas. Primeiro, a implementação generalizada dos telemóveis e depois, a internet, e num futuro muito próximo a internet móvel por UMTS.

Isto irá implicar um desenvolvimento irreversível da domótica e o aparecimento de novos equipamentos como as Portas Residenciais. As nossas casas irão possuir várias redes - eléctrica, domótica, electrodomésticos, informática, segurança, áudio e vídeo – as quais estarão ligadas ao exterior através de uma Porta Residencial.
 
Novas empresas estão a chegar a este mercado provenientes de áreas como a informática e comunicações (Microsoft, Cisco, Nokia, Ericsson, Sun, Compaq), electrodomésticos (Miele, Ariston, Zanussi, Fagor, Siemens, Electrolux) e entretenimento (Sony, Philips, Panasonic, Fujitsu) entre muitas outras.

Toda esta dinâmica nos sugere que a domótica se está a implantar e que veio para ficar.
No próximo número teremos um artigo referente aos sistemas, protocolos e tecnologias mais utilizadas nas instalações domóticas.

Publicado na Revista O Electricista, n.º 1, trimestral, Jul. Ago. Set. 2002