Automação doméstica – que futuro para a domótica em Portugal

Um espaço Inteligente é aquele que proporciona aos seus utilizadores uma total satisfação em termos de conforto, segurança, comunicações e poupança de energia e contribui para o desenvolvimento sustentável da Sociedade.
Os Espaços Inteligentes, sejam eles Edifícios ou Habitações, constituem uma realidade e traduzem a evolução que as telecomunicações trouxeram para as áreas da Electrotecnia, Mecânica e Segurança, assim como a sua integração numa envolvente de Arquitectura que demonstra um maior respeito pelo meio ambiente e as gerações futuras.
Em termos de Edifícios (Escritórios, Públicos, Hospitais, Hotéis, etc.) esta preocupação está bem patente logo de início pois, normalmente, os projectos incluem uma componente de Automação que se destina a fazer a Gestão de Energia actuando primordialmente sobre o Aquecimento, Ventilação e Ar Condicionado (AVAC) e outras áreas como a Iluminação, por exemplo. O próprio Promotor encara este “dispêndio de capital” com bons olhos pois, por um lado, a isso é obrigado legalmente, a partir de um determinado valor de potência, e por outro, sabe que a Gestão Técnica faz reduzir consideravelmente o consumo de energia, ou seja, os seus Custos de Exploração.
E, em termos das Habitações?
Pois aí, as coisas não são tão claras! A Domótica ou Automação Doméstica constitui, ainda hoje, algo que desperta interesse e curiosidade, mas constitui claramente uma excepção e não a regra em relação ao que existe no Parque Habitacional Nacional.
Esta é uma verdade, mas constitui algo de estranho pois cada vez passamos mais tempo fora de casa o que obriga a que necessitemos de um certo tipo de ajuda para o controlo e gestão da Habitação, assim como para a realização de um certo número de tarefas quotidianas. Quando chegarmos a casa desejamos que tudo esteja preparado, preocuparmo-nos o menos possível com tarefas aborrecidas e repetitivas e, deste modo, relaxarmos e, em segurança, disfrutarmos de um merecido descanso.
O uso racional da Domótica, tendo em devida consideração certas condições ecológicas, proporciona esta ajuda que tanto necessitamos.
Desde o início do século passado que as nossas casas foram sendo gradualmente invadidas por produtos e equipamentos eléctricos, a maioria deles com muito pouca inteligência. Alguns, inclusive, possuem uma capacidade rudimentar de Automação – como um termostato para manter a temperatura de uma sala – mas, são essencialmente unidades sem comunicação com outras e controladas manualmente.
Na década de 90, foram introduzidas novas versões destes produtos eléctricos, baseadas em microprocessadores. Foram também desenvolvidos protocolos de comunicação que proporcionam aquilo que se chama uma Rede Domótica.
Uma Rede Domótica pode ser definida como um conjunto de dispositivos “inteligentes” que utilizam um protocolo de comunicação sobre um ou mais meios físicos para levar a cabo os objectivos pretendidos. Assim, temos que uma Rede Domótica não é unicamente um par de fios (ou algum outro meio físico como a Linha de Energia, as Ondas Rádio, o Infravermelho ou a Fibra Óptica) que interliga os vários elementos, mas sim um conjunto de unidades capazes de comunicarem entre si através de um ou mais meios físicos que suportem a comunicação.

Estes dispositivos ou unidades podem classificar-se segundo a sua funcionalidade em:

  • Sensores: Capturam valores e informações do local como presença de pessoas, temperatura, falta de energia, fugas de água ou gás, incêndio, luminosidade, tempo, vento humidade,...;
  • Actuadores: Realizam o controlo de elementos como electroválvulas (água e gás), motores (estores, portas, rega), ligar, desligar e variar a iluminação ou o aquecimento, ventilação e ar condicionado, sirenes de alarme,...;
  • Controladores: Gerem a instalação e recebem a informação dos sensores transmitindo-a aos actuadores;
  • Interfaces: Dão e recebem informação para e de o utilizador, constando normalmente de Teclado, Display, TV, PC, Telefone, Telemóvel, Internet, WAP,...;
  • Dispositivos Específicos: Elementos necessários ao funcionamento do sistema como Modems ou Routers que permitem o envio de informação entre os diversos meios de transmissão onde viaja a mensagem.

Posto isto, já definimos o que é uma Rede Domótica e como é constituída. Igualmente, já vislumbrámos várias aplicações, mas falta acrescentar que igualmente na Década de 90 apareceram protocolos que se tornaram standards como o EHS (European Home Systems), o EIB (European Installation Bus), o BATIBUS e o LON (Local Operative Network), significando isto que vários produtos de vários fabricantes podem ser instalados numa mesma Rede Domótica comunicando todos entre si, desde que utilizem o mesmo protocolo.
Tudo isto aliado ao facto de os preços se terem tornado mais convidativos até ao ponto de, com algumas centenas de contos se poder automatizar um Apartamento ou Moradia, novo ou usado, pois um standard como o EHS que utiliza a Rede Eléctrica dos 230V como Bus de comunicação não necessita da existência de uma précablagem ou pré-tubagem, tornando esta tecnologia mais apelativa.
Em Espanha, França e Alemanha bem como em algumas Urbanizações em Portugal os profissionais das Imobiliárias afirmam que têm muito mais facilidade em vender Habitações possuindo Sistemas Domóticos do que as que não os possuem. Mas, não nos enganemos! Isto são excepções, pois a maioria dos Promotores Imobiliários constróem e promovem aquilo que designam de Gama de Luxo ou Alta (já nem falo na Gama Média ou Média Alta) sem quaisquer tipo de Sistemas de Automação ou controlo, deixando ao comprador a opção única de vir a possuir uma Habitação que já está obsoleta ainda antes de ser vendida.
As causas de tudo isto não se resumem à especulação imobiliária reinante ou ao facto de os projectos de electricidade que acompanham o processo para aprovação Camarária serem, salvo raras excepções, de qualidade medíocre parecendo que se destinam unicamente a interligar lâmpadas, interruptores e tomadas, sem nenhuma preocupação em termos de energia que considere a climatização, a iluminação e os outros equipamentos. Igualmente, os Projectos de Arquitectura e Construção Civil deverão deixar de ser realizados unicamente para serem agradáveis ao olhar e depois não possuírem nem orientação solar conveniente, nem vidros duplos, ou simplesmente isolamento térmico ou acústico, mas sim o conjunto de aberrações com que nos deparamos diariamente.
Portugal é um dos países da Europa onde a construção é mais cara e onde o nível de oferta, em termos de qualidade e bem estar no que respeita à Habitação, é menor.
Seria conveniente que existisse uma Política concertada por parte do Governo e das Autarquias de modo a que a especulação imobiliária não venha a hipotecar ainda mais a nossa qualidade de vida e, se os preços das casas não baixam, pelo menos que as Habitações tenham uma qualidade superior e estejam preparadas para receber moradores que estão cada vez mais informados e que começam a valorizar a tecnologia e todo o conforto e economia que ela proporciona.
Para terminar, gostaria de salientar que todas estas tecnologias estão suficientemente maduras e disponíveis para serem instaladas, como o podem comprovar os muitos milhares de moradores que convivem diariamente com estes sistemas e que estão preparados para receber as novidades deste Milénio onde iremos ter igualmente os electrodomésticos e os equipamentos Áudio/Vídeo Inteligentes e a conviver com as outras instalações da casa através de novos protocolos como os JINI ou o OSGI. O Futuro existe hoje para a Domótica em Portugal. Para quê esperar?!

Jornal o Primeiro de Janeiro

Domingo , 2 de Julho  2000